Porque os estetoscópios vão sobreviver ao teste do tempo

Recentemente entrei em uma discussão sobre futuro dos estetoscópios com alguns colegas. Eles alegam o avanço da tecnologia está fazendo com que o estetoscópio esteja com seus dias contados. Achei a discussão tão interessante que decidi trazer para vocês um pouco dos argumentos que utilizei.

Vamos lá.

Os estetoscópios vem ajudando doutores a encontrar doenças e anormalidades em pacientes por mais de cem anos. E o incrível é que eles basicamente não mudaram de lá para cá. Você pode pensar que isso é mais um ponto de atenção, já que enquanto ele está estagnado, a tecnologia digital evolui, mas analogicamente, realmente não há muito o que fazer. A última grande alteração no equipamento aconteceu quando o Dr. David Littmann reinventou o design do equipamento lá para meados dos anos 60 e foram incluidos o diafragma regulável e os tubos sem latex.

Em paralelo, também no fim dos anos 60 nasceram os primeiros estetoscópios elétricos. Eles captam o sinal recebido pelo diafragma e os transforma em sinal digital. Com isso, é possível amplificar o sinal para detectar difíceis anormalidades que seriam difíceis de identificar com um estetoscópio analógico. Existem também modelo avançados de estetoscópios eletromagnéticos, que são ainda mais precisos mesmo quando ampliam o som.

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Protótipo do TheStethoCloud

Recentemente, o Dr. Hon Wen Chong desenvolveu o TheStethoCloud, que transforma o estetoscópio, juntamente com um smartphone,  em um equipamento inteligente. O estetoscópio contém um microfone que se conecta com smartphones compátiveis e que faz uma varregura para encontrar sons que reflitam potencial de pneumonia. São algoritmos bem complexos que encontram o padrão e definem com bastante precisão quem deve ser medicado / observado.

 

Steh IO

Steh IO

Outra tecnologia recente e bastante interessante é o StehIO, uma capa para Iphone fabricada em uma impressora 3D de alta tecnologia. Ele consiste de um diafragma de plastico que possui uma série de tubos vázios que aumentam o som e resoam no microfone do iPhone. Um aplicativo desenvolvido exclusivamente para o acessório digitaliza o som e produz um output. Segundo o inventor, de 15 anos, Suman Mulumudi, o aparelho é tão sensível quanto um estetoscópio comum. Um ponto fraco deste acessório é que segundo muitos médicos, a capa completa deveria ser retirada e lavada a cada paciente examinado, já que as doenças podem se espalhar.

Com o grande avanço de usuário de smartphones, essas tecnologias estão ganhando espaço principalmente para o uso amador, mas ainda inspiram desconfiança perante os resultados.

Seguindo pelo caminho contrário, existe uma outra tecnologia que pretende substituir o estetoscópio: o ultrasom.

Equipamentos movidos a ultrasom trabalham enviando ondas de alta frequencia contra material sólida. Quando o som é rebatido de volta, o equipamento detecta e cria uma imagem. Ele funciona de forma parecida como os morcegos.

Felizmente, ela vem se tornando cada vez menor e mais capaz. Novos equipamentos já são capazes de reproduzir imagens em 3D e possuem o tamanho de um celular. Infelizmente, um equipamento deste tipo ainda é extremamente caro, impossibilitando-o de ter grande capilaridade em todos os consultórios.

Porque não acredito que o estetoscópio está com seus dias acabados?

Primeiro, porque ele é muito mais barato do que a tecnologia de ultrasom. E porque tem um custo benefício muito melhor do que os acessórios para iPhone. Um ótimo estetoscópio custa R$800 e com este equipamento você consegue encontrar diversos tipos de doenças e sons, até mesmo por cima de roupas. Além do mais, dúvido que um smartphone dure um turno inteiro de uso sem que tenha de recarregar.

O estetoscópio não requer eletrícidade e dura por decádas, se bem cuidado. Não trava e não precisa ser configurado, basta tirar do pescoço e encostar no paciente. Ele provavelmente continuará sendo usado em lugares onde não há energia, em emergencias – onde não há tempo de ligar um software – e principalmente por estudantes, jovens médicos e instituições que possuem um orçamento baixo.

Além do mais, acredito que ele nunca será tirado do quadro de matérias das faculdades e cursos técnicos em geral, mantendo a convivencia e a confiança no equipamento a sua principal fonte de permanencia no mercado.

Por fim, gosto de comparar o estetoscópio com os livros. Temos inúmeras opções de e-books e de leitores digitais, mas nenhum deles consegue recriar a experiencia de utilizar folear um livro.

E você, o que acha? O estetoscópio sobreviverá ao tempo?